EDUCAÇÃO E CULTURA
Morador de Sumaré leva pesquisas sobre skate à Unicamp e chega ao doutorado
Doutorando em Educação Física apresentou dois trabalhos científicos sobre skate no CCD 2026, com pesquisas ligadas à cultura urbana e ao ensino nas escolas
Publicado em
09/10/2026 às 14:43
Atualizado em
Resumo
- O skatista e educador Douglas Brasil, morador de Sumaré e doutorando na Unicamp, apresentou dois trabalhos científicos sobre skate durante o CCD 2026.
- As pesquisas abordam o skate como manifestação cultural, a experiência da Associação Pentágono e as possibilidades de ensino da modalidade nas aulas de Educação Física.
- Sua trajetória acadêmica também destaca o papel das políticas de permanência estudantil e a atuação de projetos que unem esporte, cultura e educação no município.
A trajetória de Douglas Vinicius Carvalho Brasil, conhecido como Vigor, representa o encontro entre esporte, educação e oportunidades de acesso à universidade pública. Morador de Sumaré há mais de 35 anos, skatista e educador, ele apresentou dois trabalhos científicos sobre skate no IX Congresso de Ciência do Desporto e VIII Simpósio Internacional de Ciência do Desporto (CCD 2026), realizado pela Faculdade de Educação Física da Unicamp (FEF/Unicamp), em Campinas, entre 30 de setembro e 2 de outubro.
Doutorando em Educação Física na Unicamp, Douglas levou ao congresso experiências desenvolvidas em Sumaré e reflexões sobre a presença do skate nas aulas de Educação Física. Os trabalhos abordam tanto o reconhecimento da modalidade como expressão cultural quanto suas possibilidades pedagógicas no ambiente escolar.
A participação também coloca em evidência uma trajetória marcada pela formação em escolas públicas, pelo acesso a políticas de permanência estudantil e pela atuação em projetos que aproximam esporte, educação e cultura urbana.

Dois trabalhos discutem cultura e ensino do skate
Um dos estudos apresentados, intitulado “Skate é cultura: relato de experiência de um projeto financiado pela Política Nacional Aldir Blanc em Sumaré-SP”, registra ações desenvolvidas em parceria com a Associação Esportiva Cultural Pentágono, organização idealizada e cofundada por Douglas.
Reconhecida como Ponto de Cultura, a associação atua há mais de uma década com skate, basquete 3x3 e cultura urbana no município. O trabalho apresenta a experiência de um projeto financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e defende o skate também como manifestação cultural, para além de sua dimensão esportiva.
O segundo estudo, “Acertando a base: o Skate como texto da cultura corporal e possibilidades de tematização na Educação Física escolar”, foi desenvolvido em parceria com o professor doutor Gilson Santos Rodrigues.
A pesquisa discute possibilidades de trabalhar o skate nas aulas de Educação Física, considerando a modalidade como parte da cultura corporal que pode ser conhecida, vivenciada e debatida pelos estudantes.
A proposta aproxima a experiência dos praticantes do ambiente escolar e amplia a discussão sobre as diferentes manifestações da cultura corporal no processo de formação dos alunos.
Da escola pública ao doutorado
A história acadêmica de Douglas começou em escolas públicas de Sumaré. Criado no Jardim Volobuef, na região do Jardim Maria Antônia, ele relata que ouviu de professores comentários que colocavam em dúvida seu futuro.
Anos depois, ingressou por vestibular na Faculdade de Educação Física da Unicamp, onde concluiu a licenciatura e o bacharelado. Segundo ele, a permanência na universidade foi possível graças a políticas de assistência estudantil, incluindo auxílios para moradia, alimentação e transporte, além da Bolsa Trabalho.
Durante esse período, também atuou com esporte adaptado em uma equipe de rugby em cadeira de rodas. Na trajetória acadêmica, desenvolveu três pesquisas de iniciação científica com bolsa, voltadas ao basquete de rua e ao basquete 3x3, e concluiu o mestrado com apoio da Capes, pesquisando a história, o desenvolvimento e os processos de ensino e aprendizagem do basquete 3x3.
Atualmente, no doutorado, com bolsa do CNPq e orientação do professor Roberto Rodrigues Paes, no Grupo de Estudos em Pedagogia do Esporte (GEPESP), investiga o ensino do skate e os impactos do esporte no desenvolvimento positivo de jovens.
“Sou prova viva da importância das ações afirmativas, como as cotas para estudantes de baixa renda, e das políticas de permanência estudantil, como a Bolsa Moradia, a Bolsa Alimentação, a Bolsa Transporte e a Bolsa Trabalho da Unicamp. Sem elas, eu não teria dinheiro para pagar uma faculdade, muito menos tempo para estudar”, afirma Douglas.
Ele considera que sua trajetória demonstra como essas políticas podem ampliar o acesso ao ensino superior e as possibilidades de formação profissional e acadêmica para estudantes de baixa renda.
Skate também ocupa espaço na universidade
Além da pesquisa, Douglas atua na formação esportiva e na valorização da cultura do skate. Entre suas iniciativas está a participação na criação da primeira disciplina de skate da Faculdade de Educação Física da Unicamp, em parceria com os docentes Roberto Rodrigues Paes e Carmen Lúcia Soares. Ele também atuou como professor em três oferecimentos da disciplina.
Para o pesquisador, apresentar trabalhos acadêmicos sobre a modalidade é uma forma de ampliar o reconhecimento de uma cultura que ainda enfrenta preconceitos.
“Como skatista, é muito importante ocupar esses espaços, porque historicamente nós não tivemos acesso a eles. Já fomos barrados na escola por estar com o skate e, até hoje, quando tentamos entrar em alguns lugares com o skate na mão, somos parados por seguranças e temos que dar explicações”, relata.
Segundo ele, levar o skate à universidade ajuda a aproximar diferentes públicos da modalidade e a questionar estereótipos associados aos praticantes.
Conhecimento produzido em Sumaré
A atuação de Douglas também está ligada a projetos esportivos, culturais e educacionais realizados no município. Além de idealizador e cofundador da Associação Esportiva Cultural Pentágono, ele é conselheiro municipal de Cultura de Sumaré, está em seu segundo mandato, e atua como professor e formador na Federação Paulista de Skate.
Entre as iniciativas idealizadas por ele estão o Festival Go Skate Sumaré, o Skate na Escola, o Skate Culture, o Seminário e Festival de Basquete 3x3 da FEF-Unicamp e o Seminário Brasileiro de Skate.
A apresentação dos estudos no CCD 2026, na avaliação de Douglas, também representa uma oportunidade de dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pela associação e à relação entre pesquisa acadêmica e iniciativas comunitárias.
“A aprovação do relato do trabalho do Ponto de Cultura Pentágono em um evento internacional da Unicamp é um reconhecimento da excelência do trabalho que desenvolvemos em Sumaré e o seu impacto social positivo”, afirma.
Para ele, a expectativa é que as pesquisas contribuam para a formação de professores, ampliem as possibilidades de ensino do skate e fortaleçam o reconhecimento de projetos que articulam cultura, esporte e educação.
A trajetória de Douglas Brasil mostra como uma prática presente nas ruas e nos bairros pode também gerar conhecimento científico, formação acadêmica e novas possibilidades de atuação social — com raízes em Sumaré e diálogo com a universidade.
Fonte: Portal da Cidade Sumaré
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