O alto custo dos medicamentos utilizados para emagrecimento e tratamento do diabetes no Brasil tem impulsionado um mercado paralelo de versões produzidas no Paraguai, muitas delas entrando ilegalmente no país por meio de atravessadores e sem qualquer controle sanitário das autoridades brasileiras.
Uma reportagem realizada na região de fronteira entre Brasil e Paraguai revelou a facilidade de compra desses produtos em farmácias de Ciudad del Este, onde funcionários chegam a orientar compradores sobre formas de transportar os medicamentos para o território brasileiro sem declaração à aduana.
O fenômeno preocupa órgãos de fiscalização e especialistas em saúde, principalmente devido ao crescimento da oferta de produtos sem registro ou autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Diferença de preço alimenta procura
O principal atrativo é o valor.
Enquanto uma caixa do medicamento Mounjaro®, utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 e amplamente procurado para emagrecimento, pode custar cerca de R$ 2.800 no Brasil na versão de 7,5 mg e ultrapassar R$ 3.400 em doses mais elevadas, versões paraguaias à base de tirzepatida são comercializadas por valores significativamente menores.
Levantamentos apontam que uma caixa com quatro ampolas pode ser adquirida por cerca de US$ 84 a US$ 86 em farmácias paraguaias, o equivalente a aproximadamente R$ 430, dependendo da cotação cambial.
Segundo comerciantes entrevistados na fronteira, a margem de revenda desses produtos no Brasil pode superar 300%.
Mercado cresce rapidamente
Relatos obtidos durante a reportagem indicam que a comercialização desses medicamentos se expandiu de forma acelerada nos últimos meses.
Comerciantes afirmam que o número de estabelecimentos vendendo produtos à base de tirzepatida em Ciudad del Este cresceu consideravelmente, acompanhando o aumento da procura por tratamentos para emagrecimento.
O modelo de transporte descrito por pessoas ligadas ao comércio informal envolve pequenas quantidades trazidas por diferentes viajantes, reduzindo o risco de apreensões em operações de fiscalização.

Produtos preocupam autoridades
A preocupação das autoridades vai além da questão tributária.
Auditores e agentes que atuam na fronteira alertam que alguns produtos comercializados no mercado paralelo não possuem autorização da Anvisa e podem ter origem desconhecida.
Entre os casos citados está a chamada retatrutida, substância ainda em fase de estudos clínicos em diversos países e sem aprovação para comercialização no Brasil.
Segundo especialistas, medicamentos transportados ilegalmente podem não seguir protocolos adequados de armazenamento, controle de temperatura e rastreabilidade.
Além disso, não há garantia sobre a composição, concentração dos princípios ativos ou condições de fabricação dos produtos adquiridos fora dos canais oficiais.
Transporte irregular aumenta riscos
De acordo com relatos de agentes de fiscalização, medicamentos são frequentemente encontrados escondidos em compartimentos improvisados de veículos, fundos falsos, pneus de estepe e até próximos ao motor dos automóveis.
As condições de transporte preocupam porque muitos desses produtos exigem refrigeração ou temperaturas controladas para manter sua estabilidade e eficácia.
Especialistas alertam que alterações térmicas podem comprometer a qualidade do medicamento e representar riscos à saúde dos consumidores.
Fiscalização enfrenta limitações
Apesar das operações constantes realizadas por órgãos federais, a extensão da fronteira entre Brasil e Paraguai é apontada como um dos principais desafios para o combate ao contrabando.
Agentes envolvidos na fiscalização afirmam que o efetivo disponível é insuficiente para monitorar todo o fluxo de pessoas e veículos que cruzam diariamente a região.
Segundo estimativas mencionadas por servidores que atuam na fronteira, apenas uma pequena parcela dos viajantes consegue ser efetivamente fiscalizada, o que favorece a entrada irregular de mercadorias e medicamentos.
Economia versus segurança sanitária
A diferença de preços entre os produtos comercializados legalmente no Brasil e as versões paraguaias ajuda a explicar o crescimento da demanda.
Enquanto um paciente pode gastar mais de R$ 33 mil por ano utilizando versões comercializadas regularmente no mercado brasileiro, usuários relatam encontrar alternativas paraguaias com custo anual inferior a R$ 3 mil.
Entretanto, autoridades sanitárias reforçam que medicamentos sem registro, sem procedência comprovada ou transportados de forma irregular podem representar riscos significativos à saúde, além de configurarem infrações à legislação brasileira.
Impacto social
O avanço do mercado paralelo de medicamentos para emagrecimento evidencia um dilema crescente: de um lado, o alto custo dos tratamentos modernos; de outro, o risco sanitário associado à compra de produtos sem controle regulatório. O cenário desafia autoridades de saúde e fiscalização a ampliar o combate ao contrabando enquanto buscam mecanismos para ampliar o acesso seguro a tratamentos cada vez mais procurados pela população.