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Saúde Mental

HC da Unicamp passa a atender pessoas com dependência de jogos e apostas eletrônicas

Ambulatório gratuito funciona às quartas-feiras, sem necessidade de agendamento, e oferece acolhimento, avaliação psiquiátrica e grupos terapêuticos

Publicado em 06/08/2026 às 08:34

Ambulatório do HC da Unicamp começa a atender dependentes de jogos e apostas (Foto: Antonio Scarpinetti/Unicamp)

O Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp iniciou um serviço gratuito de acolhimento e tratamento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas eletrônicas. O atendimento é realizado no Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa), vinculado ao setor de Psiquiatria do hospital, e funciona todas as quartas-feiras, das 8h às 11h30, no segundo andar do HC.

Segundo a Unicamp, o serviço é destinado a pessoas maiores de 18 anos e não exige encaminhamento ou agendamento prévio. Basta comparecer diretamente à recepção do ambulatório.

Os pacientes passam por triagem, avaliação psiquiátrica e participação em grupos de acolhimento, nos quais podem compartilhar experiências relacionadas ao comportamento de apostar. Quando necessário, também podem receber prescrição de medicamentos para auxiliar no controle do impulso de jogar.

O psicólogo Maurício Sant’Ana, do programa de treinamento em serviço do Aspa, afirma que os casos têm revelado situações de grande comprometimento financeiro.

“Tem pessoas apostando a rescisão de trabalho e tem gente apostando o salário. Isso é preocupante”, alerta.

Para adolescentes, o atendimento ocorre de forma individualizada, devido às particularidades dessa fase do desenvolvimento.

A psiquiatra Renata Azevedo, responsável pelo Aspa, explica que os casos começaram a aparecer com frequência entre pacientes que já eram acompanhados por dependência de álcool, tabaco e outras drogas.

“Pelo fato do ambulatório ser porta aberta, começaram também a aparecer casos novos de pessoas só com dependências comportamentais, nas quais se enquadram os jogos e apostas eletrônicas. Vimos que havia a necessidade de se criar um atendimento específico para esse grupo de pessoas”, afirma.

O que é o transtorno do jogo

O transtorno do jogo, também conhecido como ludopatia, é caracterizado pela perda de controle sobre o comportamento de apostar, incluindo frequência, intensidade e duração das apostas. O problema costuma levar à priorização do jogo em detrimento de outras atividades e responsabilidades, sendo agravado pela facilidade de acesso por meio do celular.

Segundo Maurício Sant’Ana, muitos pacientes chegam ao serviço em um contexto de negação, vergonha, ansiedade, depressão e isolamento social.

“O jogo promove uma falsa ideia de companhia e de participação”, explica.

O psiquiatra Felipe Santaella destaca que o comportamento geralmente começa de forma ocasional, mas pode evoluir para um ciclo de perdas e tentativas de recuperação financeira.

“Eles apostam para tentar recuperar o que perderam e entram num processo em que o gasto acaba sendo maior. Tem paciente devendo para banco, agiota e família. Isso é motivo de muito sofrimento”, relata.

Dados apontam maior risco entre usuários de bets

De acordo com dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado em parceria entre Unifesp e Ministério da Justiça, usuários de sites e aplicativos de apostas têm quatro vezes mais chances de desenvolver problemas relacionados ao jogo.

O estudo também aponta risco triplicado entre adolescentes e pessoas de menor renda, enquanto entre os homens a incidência é duas vezes maior.

Renata Azevedo ressalta que a falsa expectativa de recuperar rapidamente o dinheiro perdido é um dos principais fatores que mantêm o comportamento compulsivo.

Capacitação de profissionais

Em maio, a equipe do Aspa promoveu uma capacitação para mais de 100 profissionais de saúde e estudantes da Unicamp sobre o atendimento a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas eletrônicas.

A atividade discutiu o funcionamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), fluxos de cuidado, atendimento a adolescentes e casos clínicos relacionados à ludopatia.

O treinamento foi conduzido pelos psiquiatras Felipe Santaella e Renata Azevedo, além do psicólogo Maurício Sant’Ana, com o objetivo de ampliar a qualificação dos serviços de saúde para lidar com o crescimento dos casos de dependência comportamental associados às apostas eletrônicas.

Fonte: Portal da Cidade Sumaré

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